segunda-feira, 3 de setembro de 2007

Mulher Maravilha - O Espírito da Verdade

Publicada lá fora pouco após os atentados de 11 de setembro, a incerteza que tomou os EUA parece permear toda a história, sem desviá-la da idéia original: recuperar a essência da personagem.
Para quem só conhece a moça de lembranças distantes da infância: a Mulher Maravilha foi enviada de sua terra natal, Themyscira (a paradisíaca ilha onde vivem as amazonas da mitologia grega), ao "mundo dos homens" para ser embaixadora da paz e ensinar aos humanos comuns a "verdade" que eles não conseguem enxergar.

Mas a paz imbuída nessa verdade não pode ser conquistada sem conflitos e sem respeitar as diferenças culturais e sociais do mundo real, e isso é algo que a heroína aprende a duras penas nessa história.

Então, "O Espírito da Verdade" é uma história sobre uma ignorante superpoderosa que percebe o óbvio depois de fracassar repetidamente?

Não exatamente.

A Mulher Maravilha transita da China ao Iraque, passando até pelo Brasil (nenhuma nação é nominalmente citada, mas até uma criança percebe as referências óbvias), vendo que não é uma mulher com atributos super-humanos (em todos os sentidos) vestida em trajes sumários ditando uma verdade imposta que vai convencer a humanidade a aprender lições de paz e fraternidade que séculos de suposta civilização não ensinaram.

Assim, ela aprende que o terrorismo e a opressão política não são eliminados com feitos fantásticos ou diálogos bem-intencionados - talvez estejam até mesmo além de qualquer solução.

Pode-se até dizer que a trama é uma fábula simpática sobre uma fascista que descobre o quanto suas crenças são distorcidas.

Apesar desse ponto positivo, é óbvio que não estamos diante de um marco dos quadrinhos, afinal, o argumentista Paul Dini já provou nas edições dos outros personagens que não consegue dissociar o ideal de heroísmo do orgulho paternalista americano. Em alguns momentos, fica evidente a postura "didática" que a amazona assume junto de membros do governo americano, o único que parece tê-la recebido bem.

Mas - também como nas demais edições - esse pormenor é compensado pelo ritmo ágil da narrativa (o que é de fato uma especialidade de Dini, mais afeito a roteiros de desenhos do Batman e Super-homem para a TV) e pela arte primorosa de Alex Ross.

O realismo desse pintor não é estéril como acusam: basta conferir as belas (ainda que breves) imagens de Themyscira, inspiradas na Roma dos Césares, ou a beleza jovial que ele conferiu à protagonista, ao contrário do ar maduro que as histórias em série costumam lhe emprestar. E no meio disso, algumas imagens emocionalmente apelativas passam batido, sem incomodar muito.

"Mulher Maravilha - O Espírito da Verdade" está muito aquém do brilho total que os quadrinhos podem alcançar, mas supera em dignidade textual e qualidade gráfica muitas das abobrinhas que encontramos semanalmente nas bancas. Vale conferir, nem que seja pela razão mundana de apreciar a exuberante beleza da heroína no teraço único de Alex Ross.

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