quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

Marvels


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Como seria acompanhar alguns dos principais acontecimentos do universo Marvel fora da perspectiva tradicional de heróis e vilões? Da perspectiva de alguém que não sabe exatamente o que está acontecendo e que, temendo pelo próprio destino, muitas vezes toma o verdadeiro herói como vilão? Ora, é muito fácil chamar o J. Jonah Jameson de estúpido por considerar o Homem-Aranha uma ameaça, afinal sabemos que o alter ego de Peter Parker é um dos mocinhos. Também é igualmente fácil achar um absurdo a forma como a raça humana odeia os mutantes quando os quadrinhos mostram apenas o lado dos vigilantes mascarados. Mas e se estivéssemos do outro lado? E se os mutantes realmente existissem no mundo real, será que não os odiaríamos? Muitos brancos ainda têm problemas com negros, é algo comum ver chineses que odeiam japoneses. Exemplos de racismo, infelizmente, não faltam. Se temos problemas com as raças que já existem hoje e cujas diferenças são nada mais que físicas, como poderíamos aceitar uma outra raça? Podemos dizer, com veemência, que não teríamos nada contra uma nova raça cuja diferença não fosse apenas na aparência, mas que ainda tivesse as habilidades e poderes necessários para nos roubar, seqüestrar, ou até matar? Para responder a estas perguntas, foi criado Marvels, uma espetacular Graphic Novel em quatro partes que mostra o universo Marvel da perspectiva de uma pessoa normal, ou seja, da nossa. Claro, é muito fácil se identificar com o Homem-Aranha/Peter Parker, afinal, ele é um cara comum, que tem problemas para conseguir namoradas, para pagar o aluguel e até para ajudar a família.. Ele é, possivelmente, o único herói para o qual os roteiristas podem criar uma estória inteira sem mostrar uma única vez o uniforme. Mas, no fim e, por mais normal que ele pareça/seja, ele ainda é um cara com as habilidades de uma aranha. Em Marvels, o personagem principal não é um cara poderoso. Ele não é forte, não é ágil, muito menos imortal. Ele é apenas uma pessoa. Um jornalista chamado Phil Sheldon. Lendo a estória deste jornalista, veremos clássicos do universo Marvel recontados através de sua ótica. Desde o surgimento dos super-heróis na época da Segunda Guerra Mundial, até culminar naquela que é, provavelmente, a estória mais conhecida das HQs Marvel, aquela que conta a morte de Gwen Stacy, o primeiro amor de Peter Parker. Com ótimo roteiro de Kurt Busiek e fantástica arte de Alex Ross, as qualidades são tantas que é até difícil destacá-las. A arte é maravilhosa. Não são apenas desenhos, são verdadeiras pinturas. São tão realistas que é comum serem confundidas com fotos. Já o roteiro de Kurt Busiek é tão emocionante que faz o leitor devorar as páginas com tanta ansiedade que mal tem tempo de admirar as pinturas. Peguemos como exemplo a Parte Dois, que relata o problema com os mutantes. A estória é construída de tal forma que, por mais que o leitor simpatize com a causa do Professor Xavier, é impossível não sentir medo deles, principalmente quando, em determinado momento, Phil descobre que existe um mutante vivendo no porão de sua casa. Busiek brinca com as emoções do leitor alternando medo e compaixão e nos levando, inevitavelmente, a indagar o que faríamos nessa situação. Simplesmente fantástico. Muito mais do que um gibi, Marvels é uma experiência, que merece ser vivenciada tanto por aqueles que conhecem o universo Marvel quanto por aqueles que nunca se interessaram por HQs. Sua estória é tão tocante que vai levar o leitor a se perguntar: “Será que são apenas os poderes que fazem um verdadeiro herói?”.

Marvels é comparada a reinos do amanhã da DC, por terem o mesmo desenhista Alex Ross, têm o mesmo tema: a conturbada relação entre o homo sapiens e os super-heróis. São filhas do conceito genial bolado por Stan Lee e Jack Kirby, o átomo de Hidrogênio que deu origem a todo o universo Marvel.

Se em Marvels o sentimento que sobressai é o deslumbre mitológico em constatar que gigantes ainda caminham sobre a terra (apesar dos preconceitos contra a nova raça, particularmente bem explorados no capítulo dos X-Men), Reino do Amanhã é dominada por um tom pessimista, afirmando que os heróis perderam sua majestade e honra. Marvels é auto-congratulatório, festivo, banhado de esperança no mundo melhor para o qual os super-heróis conduziriam; Reino do Amanhã é quase sua contrapartida completa, a decepção pelo caos em que os super-heróis transformaram o mundo. Marvels é revisionismo histórico otimista. Reino do Amanhã é futurismo negativo, mesmo que haja esperança no final.

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