domingo, 1 de fevereiro de 2009

Kingdom of Heaven



Formato:RMVB
Qualidade: ótima
Legendado
parte1
parte2
parte3
parte4
parte5
Sinopse: (spoilers)
Reflexo do cenário e das preocupações internacionais deste início de século, "Kingdom of Heaven" é uma película tecnicamente bem feita e que pretende ser politicamente correta. Segundo seu diretor, Ridley Scott, "o filme é sobre a paz, a tolerância e a possibilidade de convivência entre povos de diferentes orientações religiosas, culturas e crenças". Para atingir seu propósito, ele não relutou em manipular fatos e personagens históricos com a mais absoluta sem-cerimônia, ainda que com perspicácia e competência.

A ação se passa no final do século XII, época em que o sultão Saladino (de origem curda) reconquista a cidade de Jerusalém (1187), que os cristãos da Primeira Cruzada (1090) haviam tornado capital de seu Reino Latino .

No filme, o personagem principal, Balian, é um bastardo ferreiro francês, que se torna cavaleiro e barão de Ibelin (um feudo na "Terra Santa"), graças à inesperada visita de seu genitor, o nobre Godfrey de Ibelin. Após a morte do pai, ele viaja para Jerusalém e, no caminho, mata, em duelo singular, um experiente guerreiro muçulmano, apesar de só ter tido algumas poucas horas de treinamento no uso da espada. Em Jerusalém, Balian toma posse de seu feudo, torna-se amigo do rei-leproso, Baldwin IV, e do conselheiro real, Tiberias, conde de Trípoli, e ainda namora a bela Sybilla, esposa insatisfeita do prepotente Guy de Lusignan.

A verdade histórica é que Balian nunca foi ferreiro, nem precisou viajar para a Palestina, pois já estava lá, àquela época. Era um dos três filhos do barão Balian (e não Godfrey), e sua família (de origem francesa ou normando-siciliana) participava da Alta Corte do Reino Latino. Também não teve um caso com a princesa Sybilla, que era irmã do rei-leproso e mãe do herdeiro do trono, Baldwin V, (ainda criança e solenemente omitido no filme). Segundo o historiador árabe, Ali ibn al-Athir, Sybilla apaixonou-se "por um recém-chegado do Ocidente, um certo Guy [de Lusignan]. Ela o esposou e, com a morte prematura de Baldwin V, colocou a coroa na cabeça do marido".

No filme, o conde de Trípoli (Tiberias), que é o artífice da política de coexistência pacífica com o sultão Saladino, abandona Jerusalém quando Guy sobe ao trono e conduz os cristãos à desastrosa batalha de Hattin. Mas Ibn al-Athir nos exibe outra imagem do conde: "ele era muito ambicioso e desejava ardentemente tornar-se rei". Durante algum tempo, o conde (cujo nome real era Raymond) foi regente do rei-menino, Baldwin V, mas perdeu prestígio com a ascensão de Guy, o que lhe gerou tanto rancor que escreveu a Saladino oferecendo-lhe sua amizade, em troca do trono de Jerusalém. O máximo que conseguiu foi ter sua fuga para Trípoli garantida pelo sultão.

O grande vilão do filme é Reynald de Chatillon, Cavaleiro da Ordem dos Templários, responsável pelo ataque a uma caravana muçulmana, fato que levou ao rompimento da trégua construída por Baldwin IV, e conseqüente investida de Saladino contra Jerusalém. Após a batalha de Hattin, ele é aprisionado (juntamente com Guy) e morto pelo próprio sultão, sendo este um dos poucos pontos em que a realidade histórica e o filme de Scott não conflitam. Segundo o escritor Imadeddin al-Asfahami, conselheiro de Saladino, que assistiu ao fato, "a cabeça de Reynald foi cortada e o seu corpo arrastado diante do rei Guy, que começou a tremer".

Balian foi, realmente, o responsável pela defesa de Jerusalém, como mostra o filme. O cerco da cidade durou de 20 a 29 de setembro de 1187, e terminou com um acordo entre Balian e Saladino. No filme, o cristão entrega Jerusalém em troca de salvo-conduto gratuito para todos os seus habitantes, depois de ameaçar destruir os "lugares santos" da cidade. A verdade histórica é que, além disso, ele ameaçou matar todos os cinco mil muçulmanos que viviam em Jerusalém. Por outro lado, o acordo não saiu de graça: Saladino cobrou um resgate de cada pessoa a quem garantiu salvo-conduto.

O filme se encerra com Balian retornando à França, na companhia de Sybilla. A realidade é que ele partiu sozinho para Tiro, ao encontro de sua verdadeira esposa.

Um comentário:

Superspider disse...

Pequena Aula de História

No século XI a.C., a cidade foi conquistada pelos hebreus que ali construíram um templo em homenagem a Javé, seu deus único. Entre os séculos IV e VII, ela ficou quase todo o tempo em poder dos cristãos, que a consideram sagrada por guardar a memória dos últimos dias de Jesus na Terra.

Os muçulmanos, por sua vez, acreditam que foi de Jerusalém que o profeta Maomé ascendeu aos céus em 620. Assim, em 638, a cidade foi dominada pelos árabes seguidores do islamismo. Defensores da tolerância religiosa, os novos donos da cidade permitiram que peregrinos cristãos continuassem visitando Jerusalém.

Em 1071, no entanto, os árabes foram expulsos de lá, e a cidade passou para as mãos dos turcos seldjúcidas, que também seguiam o islamismo. Ao contrário dos árabes, os turcos não só impediram as peregrinações cristãs, como passaram a perseguir os seguidores do cristianismo que viviam na região.

Diante dessa situação, em 1095, o papa Urbano II decidiu convocar os cristãos para uma guerra santa visando libertar Jerusalém do domínio turco. O papa assegurava a salvação da alma para todos aqueles que partissem para os campos de batalha. A chamada teve boa acolhida, não apenas por conta de suas motivações religiosas. Para os nobres, a campanha poderia significar o acúmulo de mais riquezas, para os cavaleiros pobres, a esperança de ganhar, enfim, o seu feudo e para os camponeses, que vivam como servos, a conquista de sua liberdade.

Na verdade, conclamar uma guerra santa foi apenas um pretexto, pois uma série de outros interesses estava por detrás da proposta papal. Por meio dessa campanha militar, o papa Urbano II pretendia, principalmente, recuperar o prestígio e a unidade da Igreja, abalados pela corrupção do clero e pelo Cisma do Oriente, ocorrido em 1054, responsável por ter dividido a cristandade entre a Igreja Católica Apostólica Romana, com sede em Roma, e a Igreja Ortodoxa, com sede em Constantinopla.

Quem tomava a cruz para socorrer assim seus irmãos ganhava em troca a salvação.

Do ponto de vista militar, uma cruzada era uma aventura curiosa, sem cadeia de comando definida ou alvos estratégicos claros. Esse improviso não causava grande impressão entre os muçulmanos. Talvez por isso o Islã nunca tenha enxergado nas Cruzadas o equivalente cristão da jihad. Tudo o que eles viam eram bandos desordenados de invasores, falando de uma religião que não lhes apetecia. Se uma coisa não mudou nos séculos desde então é que o Islã, para seus seguidores, é a Revelação perfeita e definitiva. Os muçulmanos achavam que havia coisas a aprender com civilizações como a chinesa ou a indiana, mas certamente não com a européia.

As Cruzadas produziram inúmeras discórdias, mas também uma unanimidade: o sultão Salah al-Din (1138-1193), que, ao tomar Jerusalém, em 1187, concordou em deixar sair da cidade todos os cristãos que pagassem um pequeno resgate. Não só cumpriu a promessa, como dispensou centenas de indultos a pobres, idosos, mulheres e escravos. A admiração ocidental por Saladino se converteu em quase-adoração quando, na Terceira Cruzada, ele encontrou em Ricardo I um oponente à altura de seu carisma e cavalheirismo (mas não de sua força militar). Nascido em Tikrit, atual Iraque, o sultão não particularmente devoto tornou-se herói no Oriente por ter unificado as forças muçulmanas. No Ocidente, virou o símbolo da sofisticação do Islã, posto do qual governaria a imaginação européia pelos séculos seguintes.

"Não foi por Deus que viemos aqui. Foi pela terra e pela fortuna", diz um cavaleiro, com amargura, numa cena do filme Cruzada. A frase não resume apenas muito do sentimento ocidental e também muçulmano para com as Cruzadas medievais. Basta trocar "Deus" por "democracia" e "terra" por "petróleo" para que ela passe a funcionar como uma síntese da visão popular, a Leste e a Oeste, do atual conflito no Iraque e das tensões entre o mundo ocidental e o islâmico.